terça-feira, 27 de setembro de 2011

A ecologia chegou à favela!



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GENEROSIDADE - 22/09/2011 22h03 - Atualizado em 23/09/2011 00h37

TAMANHO DO TEXTO

A ecologia chegou à favela

Uma ativista paranaense mostra como os cuidados ambientais ajudam os moradores da Brasilândia, um dos bairros mais pobres de São Paulo

ALINE RIBEIRO

NOVOS RUMOS Monica em uma das hortas construídas num terreno baldio na Brasilândia. O local era usado como lixão e para desovar cadáveres (Foto: Rogério Cassimiro/Época)

Foi com o método pé na porta que a paranaense Monica Picavêa entrou pela primeira vez na Brasilândia, um bairro de 265 mil habitantes na Zona Norte de São Paulo. Numa manhã de abril de 2010, cerca de 30 mulheres se espalhavam pelo salão de uma igreja evangélica da comunidade, olhos e ouvidos atentos ao discurso de Monica: “Como podemos trabalhar para melhorar isto aqui? O que vocês mais amam fazer nesta vida?”, disse, numa sequência infindável de perguntas. Depois de várias tentativas para retirar uma manifestação dali, Monica recebeu um longo silêncio (interpretado mais como falta de interesse). Fechou o computador, colocou um cartão de visita sobre a mesa e, antes de virar as costas, disse: “Quando vocês descobrirem do que gostam, me procurem. Ninguém está aqui obrigado. Não quer ficar? É só sair”. Não por acaso, ela ganhou o apelido de Capitão Nascimento, o comandante linha-dura do filme Tropa de elite.

Quem não presenciou a cena dificilmente entenderia a alcunha. Monica, em seu estado natural, tem voz infantil, corpo franzino e traços de menina. Aos 37 anos, mais se parece com uma jovem estudante cheia de idealismos. Apesar da toada angelical, ela sabe bem como engrossar o tom quando necessário. Naquele dia, Monica tentava envolver uma pequena parte dos moradores da Brasilândia num programa inovador. Ao perceber que o respeito não viria pela fala afetuosa, partiu para um discurso mais duro. “Na mesma semana, eles me ligaram marcando outra reunião”, afirma.

Foi assim que Monica trouxe para um dos bairros mais pobres de São Paulo o movimento Transition Towns (ou Cidades em Transição), criado pelo inglês Rob Hopkins. Trata-se de uma iniciativa global para transformar os ambientes urbanos em cidades sustentáveis, sempre com a ajuda da criatividade local. A intenção é que esses centros caminhem rumo a uma economia com menos impactos ecológicos. Que dependam menos de produtos derivados do petróleo, como combustíveis e plásticos. E que sejam mais resistentes às grandes catástrofes, como enchentes. Tudo motivado pelas mudanças climáticas.

Projeto Generosidade (Foto: reprodução)

O movimento tem cinco anos e está hoje em 34 países. Conta com 382 iniciativas espalhadas por cidades ao redor do mundo. Mas a primeira vez que essas ideias pousaram em um bairro pobre foi na Brasilândia, onde a prioridade é garantir o almoço do dia seguinte. Para aplicar o programa, Monica criou uma rede no bairro que conta hoje com mais de 500 moradores. Ela não participa de todas as iniciativas. Apenas facilita as reuniões, de modo que a própria comunidade tenha as ideias – e as execute.

As mudanças são notáveis. Parte dos terrenos baldios do bairro, antes usados como lixão e local para desovar cadáveres, abriga agora hortas comunitárias. O reflorestamento e os cuidados com as nascentes entraram no radar da população. As mulheres estão se organizando em cooperativas de costura e confeitaria, uma forma de gerar renda. Também passaram a frequentar aulas de reeducação alimentar, para usar melhor as verduras e os legumes. É o primeiro passo para que as crianças troquem o guaraná e o salgadinho por alimentos mais saudáveis. Nas unidades de saúde, os idosos têm aulas de lian gong (técnica chinesa para tratar dores), ioga e grupos de caminhada. Medidas importantes para reduzir o elevado número de mortes por infarto.

Mundialmente, o programa tem o mérito de direcionar as cidades para um crescimento sustentável. Na Zona Norte de São Paulo, é valioso também por levar uma discussão sofisticada (a do aquecimento do planeta, escassez da água e pressão por comida) a um público distante do assunto. Ao apresentar a Brasilândia ao Transition, Monica colocou no dia a dia da favela as transformações atuais do mundo. Pouco mais de um ano depois, o tema virou até rap. Os moradores enxergam claramente as mudanças. “Cresci aqui e esta é a primeira vez que vejo as coisas acontecer de verdade”, diz Thamires Ribeiro, agente ambiental do bairro.

Monica diz que quer expandir o projeto para outras favelas da cidade. Ela é do tipo mulher trator. Formada em jornalismo, já fez de tudo na vida. Começou a carreira no Programa do Ratinho. Fez mestrado em marketing nos Estados Unidos. Foi presidente da Fundação Alphaville, o braço socioambiental da incorporadora do mesmo nome. Hoje, tem uma empresa de consultoria em sustentabilidade. É mãe das gêmeas Laura e Luiza, de 2 anos, morenas de cachinhos. “Elas denunciam minha chapinha”, diz rindo, enquanto mostra a foto das filhas e seu cabelo artificialmente liso. Ainda encontra tempo, quase todo fim de semana, para plantar árvores ou limpar terrenos na Brasilândia. E sem ganhar um centavo. “Eu me recuso”, diz, balançando a cabeça de um lado para outro. “Me recuso a acreditar que a gente vai acabar num buraco.” Para Monica, conter uma possível catástrofe provocada pelo aquecimento global é só uma questão de mobilização. E, se precisar, de uma dose de Capitão Nascimento.

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